A roteirização de filmes

Contar histórias não é a única forma de cinema, nem necessariamente a melhor, é simplesmente mais uma das inúmeras coisas que podemos fazer com a linguagem audiovisual. No entanto, atualmente o cinema é dominantemente ficcional, havendo a forma do documentário, também famosa, no entanto menos apreciada pela maioria das pessoas. Existem e existiram diversas outras formas de cinema, que não se encaixam nem na forma de ficção nem na forma de documentário, mas que têm grande primor no uso da linguagem audiovisual; geralmente estes filmes são classificados como gênero experimental, uma classificação superficial que abarca tanto experimentos feitos com equipamentos caseiros (super 8, video analógico, video digital, etc) quanto grandes obras profundamente estudadas e bem produzidas, como os filmes Baraka (1992) e Samsara (2012) de Ron Frickie e a trilogia Qatsi (1982, 1988 e 2002) de Godfrey Reggio. 



Para cada forma de filme, para cada gênero e para cada estética, o processo de roteirização é diferente.
Em casos de documentários, muitas vezes não é possível fazer um roteiro preciso do filme, mas sim um roteiro de temas, ou de lugares e eventos a serem filmados, mais tarde, com as gravações feitas pode-se elaborar um roteiro mais preciso, uma espécie de decupagem do filme.
Esse é caso de filmes como “Com Vandalismo” (Coletivo Nigéria, Brasil, 2013) e “Essa é a cara da democracia” (Indymedia, EUA, 2000), onde as filmagens são feitas do olho do furacão, o máximo que se teve de roteiro são as agendas de manifestações e de algumas ações diretas dos manifestantes.
 


Este tipo de filmagem ficou mais possível agora com o video digital, mas na época onde só contávamos com rolos de filmes, isso era um grande problema de produção, pois sair filmando os acontecimentos sem um script do que vai acontecer poderia ser um grande desperdício de filme e gerar grandes prejuízos. O documentário “Nanook, o Esquimó” (Robert Flaherty, 1922) foi realizado sob essa metodologia, Flaherty foi para o Alaska com sua equipe e seus rolos de filmes passar meses documentando a vida dos esquimós, sem ter ao certo o que ia acontecer. Isto é um tipo e filme que passou a ser abominado por diversos produtores, por representar prejuízo para quem financia.

No caso desse tipo de filme, mesmo hoje em dia, se gasta muito tempo para assistir o material assitido, que muitas vezes é gigantesco, para selecioná-lo e editá-lo num filme de poucas horas.
O roteiro então se faz importante para guiar as filmagens, assim, facilita-se o processo de escolha das cenas e takes que entram no filme e evita-se desperdícios, de filme, de gigabytes no HD ou mesmo de tempo.

Todo filme nasce de uma idéia, de um conceito, uma mensagem a ser passada. às vezes essa mensagem já está clara na mente do autor e da equipe, as vezes está mais nebulosa e só se apresenta claramente ao final do processo criativo.
Gosto de usar a filosofia platônica para explicar o processo criativo. Para Platão existem dois mundos, o mundo das idéias, que é perfeito, e o mundo da matéria, que é uma cópia imperfeita do mundo das idéias. Pois bem, utilizando esse ponto de vista, gosto de dizer que é como se muitas vezes o filme já estivesse pronto em algum lugar e nós (cineastas, videomakers, etc) somos os responsáveis por trazê-lo ao mundo da matéria. E o primeiro passo para isso é a escrita. É muito comum no meio audiovisual, passarmos pelas seguintes etapas de escrita: Logline, Storyline, Sinopse, Argumento, Roteiro.
Essas são etapas básicas, mas dentro destas etapas se desenrolam diversos outros trabalhos, como as pesquisas (historiográficas, sociológicas, bibliográficas, etc), a criação de personagens com suas histórias de vida, gostos, etc, desenvolvimento (ou esclarecimento) do conceito do filme (tipo a “moral da história”).

Logline é um pequenino texto, geralmente com até 2 linhas, que apresenta o personagem e a história do filme até seu conflito principal. Serve para dar uma idéia do filme e instigar a curiosidade acerca do desenrolar da história. Geralmente é a primeira coisa que surge num filme.

Storyline, já é um texto ou pouquinho maior, com cerca de 5 linhas, onde vai expor o personagem, o começo, meio e fim do filme. Aqui a história já está se estruturando.

Sinopse é um texto mais detalhado, de uma página onde os acontecimentos vão aparecendo, indicando, começo, meio e fim da história.

No Argumento a história já está pronta, com todos os acontecimentos, personagens, etc. É o filme redigido num texto literário corrido. Aqui já temos a história a ser filmada, as ações dos personagens, os lugares, etc, no entanto ainda não está escrito de uma forma “filmável”.

Roteiro já é o filme escrito, divido em cenas, indicando locais das cenas, falas, acontecimentos...
O roteiro é um texto preciso, que descreve as ações e reações dos personagens, sem apelar para questões de interpretações subjetivas do leitor. Por exemplo, se um personagem está triste (o que no argumento se escreveria, “personagem fica triste”) no roteiro, isto deve ser escrito de forma filmável, como “personagem faz cara triste” ou “seus olhos ficam marejados” ou algo do tipo. Acontecimentos subjetivos devem ser descritos com ações visiveis num filme, caso contrário, fica difícil pra quem está filmando entender o que o roteirista queria dizer.

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